Jamais se rende ao destino

A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios.

Charles Chaplin

 Manhã de sol, início da primavera no Brasil. Margareth desembarca do avião depois de onze horas de voo. Ela acaba de chegar de Paris e está encantada com a diversidade do país tropical, a terra que acolheu seus ancestrais.

A mulher negra atravessa o saguão do aeroporto e ganha a rua. Respira os novos ares, sorri, e segue na cadência do gingado senegalês. O passaporte revela que ela tem um metro e meio de altura.

Esbanja o look de saia preta plissada, blusa poá e jaqueta jeans. Usa tênis pretos de solado branco. Faz o estilo romântica e sexy, exibindo uma delicada bolsa transversal. O coque no centro da cabeça prende as madeixas de um cabelo preto alisado que lhe cai sobre os ombros. Dona de si, ela jamais se rende ao destino.

Nasceu numa comunidade pobre do Senegal e viveu em choupanas em meio aos conflitos civis. Não conheceu o pai. Perdeu a mãe aos treze anos e saiu de casa quando foi estuprada pelo padrasto. Viu lutas pela honra na aldeia, mas não quis ver sangue derramado, e decidiu partir.

A saga continua em Dacar, colônia francesa, onde ela se envolve em lutas estudantis e trabalha numa instituição do Estado. Aos vinte e nove anos, sente arrebatadora paixão por um estudante estrangeiro dez anos mais jovem. Ao saber que ela espera um filho, o pai da criança desaparece e não dá mais notícias.

De alma inquieta e inconformada com a realidade, Margareth entra na luta contra o imperialismo francês e adere à União Nacional dos Trabalhadores Senegaleses. Durante a greve geral é capturada com dirigentes sindicais e vai parar numa penitenciária do Estado. É julgada e condenada na França por esse ativismo político.

Durante o cumprimento da pena, dá à luz em solo francês. Ao deixar a prisão, trava o mais difícil combate de sua vida. Luta por quinze anos pela sobrevivência do filho e perde a batalha para a leucemia. Não resiste à dor e à solidão, e sucumbe numa tristeza profunda. 

A vida não tem mais segredos nem mistérios. Mesmo com o coração sangrando, precisa seguir em frente. Destemida e guerreira, após meio século de vida, ela aceita transpor os ventos alísios do Atlântico e chega ao país do futebol para a missão na Tarefa Global da ONU.

A agenda prevê o encontro com o embaixador brasileiro, homem de características nórdicas, bem ao estilo dinamarquês. Aos quarenta anos, ele exibe vigor e elegância na aparência soberba e altiva, mas convive com a imperfeição provocada pelo acidente que encurtou a perna esquerda em cinco centímetros. A abertura dos punhos da camisa revela pelos abundantes e subversivos.

Educado, esconde a dor da traição, quando encontrou a esposa na cama com outro. Pensou em dar fim à vida dos dois, mas não teve coragem de matar o próprio irmão. Vive seus dias se afogando no álcool, enquanto assessores e alguns poucos amigos fingem nada saber.

Às três horas da tarde, Margareth chega à mansão de tijolos a vista, na região leste da cidade. Segue pela entrada oficial e logo é recebida pelo staff da embaixada.

A representante da ONU surge na porta do gabinete, no exato momento em que o homem alto se levanta e caminha na sua direção. Ao se aproximar, seus olhos se cruzam, e Margareth fica paralisada, perplexa, diante do pai de seu filho.

A vida não para de surpreender…

E se fosse uma bomba?

O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe no meio da travessia. (João Guimarães Rosa)

Melina está ansiosa para desembarcar na terra dos Verdes Mares e sentir o prazer de sua primeira viagem internacional. Alertada para chegar duas horas antes do voo, atrasa meia hora. Não gosta de regras preestabelecidas. Só quer evitar o tédio das filas intermináveis e não ter que matar o tempo na revistaria ou no cafezinho.

Faz o checkin e caminha triunfal para a sala de embarque como quem não tem nada a temer. Mas tem pressa; tenta passar na frente de uma senhora, porém o guarda a detém e faz um sinal para esperar a sua vez. A moça nem se constrange, vai para atrás da passageira, com o olhar inquieto. A mulher remexe na bolsa, encontra a passagem, e pede desculpas.

Melina é esquisita e não suporta os conservadores. Se alguém olhar para a direita, ela certamente olhará para a esquerda. Nunca faz o mesmo trajeto, porque prefere viver o diferente. Usa roupas largas, brincos de argolas grandes e percing no nariz, na orelha e onde mais ela quiser. Os cabelos eriçados parecem nunca ver escova, mas é o seu jeito livre de ser…

Atabalhoada, coloca a mala na máquina de raio-x, passa no circuito, mas a bagagem fica retida. Fecha os olhos, incrédula; experimenta aquela sensação de náusea e calafrios percorrem-lhe a espinha só em pensar no que pode acontecer. O agente tira a mala da esteira, com aquela calma irritante, e pede para aguardar.

O primeiro pensamento é sair dali correndo e abandonar a bagagem. Mas o tumulto chamaria atenção. Enquanto pensa num meio de fuga, sente a acusação velada no olhar do agente. Uma criança começa a chorar. É a deixa para escapar, mas prestes a tomar a decisão, vê um homem de uniforme, com um cão policial pela coleira, e paralisa.

Minutos depois é levada até a área restrita do aeroporto e se junta a outras quatro pessoas. Vê as cinco malas, uma ao lado da outra, enfileiradas. Melina está tão nervosa, que nem percebe que todas as malas são iguais. Há tensão no ambiente e três agentes só esperam para agir. A porta se abre e entra o homem com o cachorro.

Aquele cão dos infernos estica a corda, com as orelhas em pé e dentes arreganhados. O animal se aproxima e joga as patas sujas e certeiras em cima de uma das mala; abocanha várias vezes até dilacerar o tecido. Melina olha perplexa para o estrago e pensa que é a sua mala. Mas não entende quando o agente a convida junto com outras três pessoas para acompanhá-lo, deixando apenas um rapaz na sala.

Pressente que está em apuros e precisa de ajuda, mas sabe que seu pai não vai ouvi-la. Da última vez, ele apenas dissera: Não me procure mais. Tudo porque ele não aceita a sua liberdade de expressão…

Na pequena sala, o agente da Polícia Federal dá uma longa explicação sobre pessoas que usam o aeroporto para transportarem drogas. Nervosa, Melina esfrega as mãos, e só espera pela palavra mágica: A senhora está presa! De repente, ouve a frase que a deixa desconcertada:

–Os senhores estão livres e podem prosseguir no voo.

O agente explica que as cinco malas eram da mesma cor e tamanho, inclusive mesmo fabricante. O sistema identificou a droga numa das bagagens, mas atribuiu a informação a todas as malas iguais, e não dá muita importância a falha, acrescentando que ali, trabalha-se para a segurança de todos.  

Melina questiona a humilhação sofrida pelo erro, mas o agente interrompe:

– Se fosse uma bomba, a senhora se sentiria humilhada em colaborar?

Melhor que o silêncio

“Uma mulher sensata tem muito a dizer, contudo mantém-se em silêncio.”
                                                  Provérbio Árabe

Samira e as amigas se reúnem para orar, tomar chá e conversar. Túnicas coloridas cobrem o corpo da cabeça aos pés. Apenas o rosto é visível. As mulheres árabes se preocupam com a aparência e estão entre as mais vaidosas do mundo.

Ao lado de macias almofadas, sentam-se sobre os calcanhares, com o peito dos pés no chão. Formam um círculo sobre o tapete persa, com taças e tigelas dispostas para a confraternização. Mas, antes, rezam e imploram em nome de Alá.

Elas se agacham e se levantam, se levantam e se agacham; sussurram e enviam súplicas inaudíveis. Algum tempo depois, cobrem o rosto com as duas mãos e começam a falar em voz alta, encerrando a celebração.

Quase tudo é proibido às mulheres muçulmanas, exceto degustar chás como quem aprecia o bom vinho. Alguns são medicinais, outros deliciosamente agradáveis ao paladar. O líquido precioso é acompanhado de doces, entre ninho de nozes, makrout (doce de tâmara), amêndoas, tortas de damascos. O aroma dos chás impregna o ambiente.

Samira está tensa e não consegue disfarçar, desde que Youssef viajou com os três filhos. Faz uma semana que ele não entra em contato. Alguns meses antes da viagem, o companheiro andava esquisito. O homem extrovertido tornara-se pouco falante.

Ela é a primeira e única esposa de Youssef. Casou-se por vontade da família. Seus sentimentos nunca foram levados em consideração. Há dezoito anos comanda a casa suntuosa, com amplo quintal cercado por muro branco. Seu animal de estimação é um rouxinol, que canta triste.

Samira faz questão de manter as aparências, e diz que o marido está para chegar a qualquer hora, porém ninguém lhe dá atenção. A notícia de que Youssef tem uma nova esposa se espalha de boca em boca entre as amigas. Apenas Samira ainda não sabe.

A sua frente está Aisha. A menina de dezesseis anos é analfabeta, tímida e reservada, mas linda como uma flor. Traz no rosto de pele lisa e clara um olhar sereno e resignado. É a mulher mais velha, que se encarrega de apresentar a jovem ao grupo para receber as boas-vindas como a segunda esposa de Youssef.

Samira é pega de surpresa. Seus olhos claros, emoldurados por rugas suaves, não conseguem segurar a lágrima indiscreta. Embora não seja raro um homem ter duas ou três esposas, ao ser comunicada em público, ela não suporta a humilhação. Levanta-se e deixa a sala em silêncio.

Volta à casa vazia. Olha-se no espelho: vê os fios de cabelos brancos e um rosto cansado de tanto esperar pelo futuro que nunca chega. Pensa no patrimônio que ajudou a acumular. Sente-se como uma mulher de segunda classe que, além de ceder a cama, terá de cuidar da casa e ensinar os hábitos e gostos do marido para que a outra possa agradá-lo. É o seu dever, ditado pela sociedade patriarcal.

Destruída moralmente, ela prefere morrer a aceitar aquele destino. Determinada vai até o closet, veste a túnica verde, com acessórios dourados. Usa um perfume exótico e decide partir, sem despedidas. Liga para o homem, que a corteja em segredo, e o convida para a audaciosa aventura, cuja saída é o aeroporto.

Sobre a mesa de jantar, deixa apenas a frase:

“Quando falarem sobre mim, cuidem para que suas palavras sejam melhores que o silêncio.”

Pescaria com vovô

É verão na casa de campo do vovô Leopoldo. Nenito, no auge dos seus oito anos, prepara-se para uma audaciosa aventura. O coração dispara de tanta ansiedade prestes a sair pela boca. É sábado e o avô combina levá-lo para pescar. Esse moleque, travesso, que corre atrás das galinhas e atiça os cachorros nos gatos, nunca participou de uma pescaria.

A imaginação do menino voa. Vovô prometeu ensinar os segredos do bom pescador. Nenito vai até o galpão e arrasta um saco de estopa para colocar o seu troféu, o jacaré; na cozinha, pega a cesta de frutas da vovó e reserva para o tubarão; depois retira a tigela do armário, e sorri feliz. Ele acredita que todos os peixinhos vão ficar contentes dentro daquele aquário.

Lá fora, o sol brilha e o calor reflete sobre a grama ainda verde. Não há canto de pássaros. A vegetação está parada, sem o murmúrio da voz do vento. Entretanto, ao longe, ouve-se o prenúncio da cigarra, que alheia ao próprio destino canta desatinada.

O menino teme que o avô nunca mais desperte da sesta. Por sua cabeça passam estórias mirabolantes… E se a velha bruxa Cândida fez uma poção para vovô dormir eternamente. Ele sempre desconfiou daqueles olhos e dos chás que a empregada fazia, após o almoço. Mas, se vovô não acordar, jura acabar com o feitiço, jogando o gato preto em cima dele. É tudo por uma boa causa, pensa.  Vovô sempre disse que promessa é dívida.

Pronto para sua aventura, ele veste uma camisa xadrez azul e branco, bermuda cinza com suspensório, boné azul e botina de couro preta. A cada minuto, olha para o relógio, suspira e balança a perna, impaciente. Só pensa nos lambaris que vai fisgar para o aquário.

Examina todos os equipamentos que o avô preparou para o passeio. Olha as duas varas de bambu, as linhas e os anzóis. Vê a lata de terra com as minhocas. Na parede do galpão, está pendurada a mala de garupa destinada as guloseimas.

Distraído, a hora o alcança, e Nenito corre ao ouvir o ronco do motor do Jipe e a voz do avô que o chama. 

 Quando vô Leopoldo estaciona o carro, o menino avista o imenso lago. Desenha milhares de peixinhos na mente e nos seus olhos arde a chama da empolgação. Com os apetrechos de pesca, o avô desce por uma estrada estreita que leva até à margem do lago. Nenito segue atrás. Eles se sentam no banco, de frente para o lago, e o avô inicia o preparo das iscas. Enquanto prepara as iscas, conversa com o neto.

Com o olhar de quem conhece o mundo, conta histórias e diz que é preciso batalhar muito para conseguir o que se quer na vida.

Nenito, ansioso, apenas escuta, mas não diz nada. Leopoldo o abraça, sorri e diz:

– Quero lhe fazer um pedido muito especial: prometa que nunca vai mentir. Com mentira, não se consegue ir muito longe, porque ela tem perna curta.  E se um dia, cometer um erro e tiver que se arrepender, não tenha medo de voltar atrás, porque sempre há recompensas.

Nenito olha para o avô, espera alguns instantes, e pergunta: – Quando vamos pescar?

– Você sabe como pegar um peixe?

– O senhor, prometeu me ensinar, lembra o menino, já inquieto com aquela demora.

– Para pegar o peixe tem que esperar o momento certo. Às vezes, é necessário aguardar muito tempo.  Nunca esqueça que sem dedicação não se chega a lugar nenhum. Ser bom em algo não significa ganhar sempre. Meio caminho andado é o mesmo que meia tarefa cumprida. Sempre termine tudo o que começar.

Leopoldo ensina como jogar a linha uma, duas, três vezes, e finalmente diz:

– Agora é a sua vez.

Nenito fica em pé à margem do lago, joga a vara de pescar lá atrás e puxa com força, jogando a isca na água. Silêncio e espera se eternizam. Cresce a expectativa, que parece aumentar a espera.

De repente, a vara verga e um enorme peixe é fisgado. É um peixe dourado, daqueles marcado pela extinção e proibido de pescar:

– Você tem que devolver, filho. Vai aparecer outro, talvez não tão bonito quanto esse.

Nenito implora e pede para levá-lo e colocar no aquário. Argumenta que ninguém vai contar para a polícia.

– Não pode fazer isso. Se retirá-lo de seu habitat está fazendo algo errado. Mesmo que outros não vejam, essa atitude não é correta, explica Leopoldo.

– Vovô, eu entendi. O peixe dourado é o mais lindo. Eu não tenho o direito de ficar com ele, porque só eu poderia ver a sua beleza.

Com a ajuda do avô, desprende o dourado do anzol e o devolve para o lago…

*Conto escrito em parceria com Alessandra Oliveira.

Meu cusco amigo

Eu ainda me lembro dos fins de tarde no campo, quando o sol descambava no horizonte, depois do desenlace de mais um dia de lida. O céu exibia rabiscos de tons nobres entre raios dourados e nuvens aventureiras. Aquela natureza me encantava. Quem nunca se deslumbrou com o pôr do sol, não sabe o que é sonhar.

Anoitecia e os vaga-lumes piscavam, enquanto a sinfonia de insetos fazia a festa. O urutau emitia sinais, com o seu canto tenebroso que mais parecia um lamento humano. O pássaro, que costuma ficar no alto de um galho seco de árvore, é associado a maus presságios por causa do seu grito.  Ele canta como quem chora a perda de um grande amor.

Em uma dessas tardes de um verão de maio, eu repontava o gado para o potreiro, onde os animais permaneciam à noite, confinados, para afugentar o abigeato, em voga na região. No dia seguinte, os animais ganhavam a liberdade, logo ao alvorecer.

Meu melhor parceiro de campeirada era um cusco baio de nome Corisco, pois era ligeiro como um raio. Cruza da raça Collie com vira-lata. Ninguém dava nada por ele, devido àquela aparência de cachorro de madame. O cão mais inteligente que eu já vi. Tinha pose. Sobre os garrões sentadito, apoiado nas patas da frente, ficava de orelhas em pé, bombeando e a perscrutar qualquer ruído estranho. Tinha a intuição da lida.

— Eia boi, eia, eia…

Montado no meu tordilho, sinalizava o meio da tropa e apenas acompanhava o reponte. O Corisco, que sempre estava presente, fazia o serviço direito. Não deixava nenhum animal se desgarrar. Quando um boi enveredava para um lado, ele corria lá e atacava, persuadindo o bicho até retornar para a tropa. Ia de um lado a outro, latia, e não sossegava enquanto a rês não alinhasse em direção ao potreiro.

Depois de tanger o gado, eu fechava a porteira e voltava para casa. Corisco caminhava na frente, a trotezito, abanando o rabo, satisfeito com o cumprimento do dever.

O cusco fazia o seu trabalho sem reclamar, pois já estava acostumado com aquela empreitada.

Na volta, soltei o tordilho no pasto e resolvi montar o potro, que estava em estágio de doma. Já era quase lusco-fusco (momento de transição entre o dia e a noite), quando fui dar uma passeada pelo campo. O cavalo saiu veaqueando, mas nunca me acovardei diante de um potro arredio, por mais ousado que ele fosse.

Seguimos pela coxilha. O Corisco acompanhava a façanha meio de longe. Corria na frente e olhava para trás, como quem mantinha o controle da situação. O cão parecia adivinhar que o bicho ia pegar. De repente, o cavalo levantou as duas patas da frente e saiu corcoveando. Puxei o freio e senti um frio no espinhaço. Em segundos meu corpo estava no ar em direção ao solo.

Hoje, em frente de casa, preso a minha cadeira, o cusco espera pelo meu grito:

— Eia boi, eia, eia… e até parece que diz:

— Patrão, deixa comigo.

Reponta o gado sozinho, igual a um peão campeiro. Depois ele volta e fica ali, em atitude respeitosa e me faz companhia. Vejo ternura em seus olhos e aquela estranha doçura do afeto que só um amigo reconhece.

*Inspirado no conto Trezentas Onças, de Simões Lopes Neto.

Um rastro de solidão

Na manhã de sábado, o clima era de férias na fazenda, quando Sete Quedas desapareceu. O sol intolerável repontava o gado para a sombra da majestosa figueira em frente ao casarão. O silêncio só era quebrado pela sinfonia de pardais, que resplandeciam a natureza toda em festa.

Ao meio-dia, ele não apareceu para o almoço. A sua ausência nem foi notada. Há dias ele andava cauteloso e parecia dominado por alguma tristeza. O apelido de Sete Quedas surgiu, quando rolou ribanceira abaixo, transpôs sete obstáculos, e ficou em pé novamente. Era um sobrevivente tão animado como nunca se viu outro igual.

Conta-se que certo dia, ele vasculhava o chão como quem procura algo perdido. Em dado momento, levantou a cabeça, viu a porta aberta, contornou o aramado, esgueirando-se rente à tela e entrou no pátio proibido. Passou pelo canteiro de flores e foi deitar-se em cima da mais bela e rara planta do jardim. Ceciliana, a dona da casa, viu a destruição da pesquisa da faculdade, que cuidava com tanto zelo, e escorraçou Sete Quedas.

O cão deu um sobressalto, espiou sua dona e calculou o risco; baixou as orelhas, escondeu o rabo entre as pernas, mirou a cancela aberta e correu para não ser alcançado. Venceu os limites daquela prisão provisória e partiu para a liberdade. Mas ao sair lá fora, ainda envergonhado, atrapalhou-se, e sem saber que rumo tomar, andou de um lado para o outro, até que alinhou a direção e seguiu a trilha sem olhar para trás. Saiu como a dizer: chega de migalhas! Vou embora e não volto mais.

Foi a última visão de Sete Quedas.

Ele sabia a hora de sair de cena. Quando escorraçado, demonstrava um semblante submisso; baixava a cabeça e bombeava por debaixo dos olhos, analisando a situação. Encolhia-se todo e andava para trás, sempre encarando o perigo de frente, mesmo quando acuado pelo medo.

Talvez por precaução, costumava ficar distante, olhando de longe o cenário, até que esquecessem o que ele fez, e então, voltava lépido e faceiro. Os ânimos serenavam e tudo retornava a ser como antes. Ele sacudia a cauda, lambia as mãos e se enroscava nos pés das pessoas como a pedir perdão. Na reconciliação mostrava-se arrependido do mal feito.

Desidério, o capataz da estância, lembra quando foi salvo do golpe de uma cobra. Sete Quedas abocanhou a cabeça da jararacuçu e saiu com ela pendurada no focinho. Aquela valentia quase lhe custou a vida. O furo na orelha direita era a marca de um tiro que levou ao avançar contra o cigano que ameaçava o patrão. Cravou a mordida e deixou sua marca na perna daquele homem corpulento, quase obeso, de olhar atrevido e riso fino.

Faz uma semana e Sete Quedas não voltou. Ceciliana sente sua falta, mas ele não sabe a falta que faz. Nunca soube o quanto era amado, porque só conheceu a censura e o desprezo. Em algum lugar, talvez viva da caridade alheia, sem o aconchego de um lar.

A peonada da fazenda anda ressentida pela falta do companheiro. O amigo da lida campeira era ligeiro como um raio. Agora quem vai dar o alarme para anunciar a suspeita de algo estranho na querência? Quem vai preencher seu lugar com a mesma ousadia?

O ser humano ainda não enxergou que se os animais desaparecerem da face da terra, ele morrerá de solidão.

GUERNICA

O sol reflete-se na fachada do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, na capital da Espanha, em pleno verão da manhã de sexta-feira. No espaço, em frente à majestosa arquitetura, as pombas gorjeiam ariscas entre as pessoas que se cruzam de lá para cá. Victória e as duas amigas desembarcam na bela Madri para um passeio pela história da Arte contemporânea.

Um dos maiores aeroportos da Europa está lotado de passageiros. No saguão, vozes se misturam ao som do alto-falante e passos medidos na aglomeração humana que se encaminha para a saída do aeroporto. Victória se dirige ao guardinha, próximo da porta, de braços cruzados, que observa o tumulto com a naturalidade de quem conhece aquela rotina. Atencioso, responde com sotaque carregado ao pedido de informações.

Minutos depois, as três mulheres estão no táxi e o chofer acelera pelas ruas da cidade para chegar a tempo de assistir a abertura da exposição de arte moderna no Museu Nacional. O austero edifício setecentista, que um dia foi hospital, faz parte do Triângulo de Ouro da Arte de Madri. Victória está eufórica.

No ambiente, os cheiros amadeirados, de flores, de café e de pimenta se espalham pelo ar. Os aromas se misturam, e sob o som da suave música instrumental, ajudam a entender a arte nascida das paixões humanas e dos sonhos de liberdade.

No segundo andar, as visitantes veem os horrores da II Guerra Mundial; no quarto andar encontram o famoso Maio de 68 francês (conflitos entre estudantes e autoridades da Universidade de Paris). No térreo e no primeiro andar observam as marcas das ditaduras latino-americanas, dos movimentos de esquerda e do ativismo artístico da região.

A exposição de arte serve para questionar o espectador. Victória está fascinada diante da estrela de maior grandeza do museu, a obra Guernica, a mais importante de Picasso. Milhares de turistas ali aportam para conhecer o legado de Salvador Dali, Pablo Picasso, Juan Miró e outros monstros sagrados.

Guernica é um mural que expressa a dor das vítimas no bombardeamento da cidade espanhola de mesmo nome, durante a Guerra Civil Espanhola, cujo episódio ocorreu no dia 27 de abril de 1937. A obra é a crítica ao fascismo alemão: o autor quis despertar nas pessoas o repúdio à guerra.

Conta-se que por vontade do artista a obra permaneceu por muito tempo em Paris.  Picasso pediu que o quadro só retornasse à Espanha quando o país novamente fosse uma democracia.

A tela denuncia sentimentos de aflição, dor, insegurança e sofrimento. As cores em tons cinza, preto e branco remetem à morte, ao horror, à guerra e à destruição. A simbologia no conjunto da obra traz a ideia da luta, da violência, mas ao mesmo tempo o recomeço, a esperança de um povo inocente que se viu massacrado pela ambição.

Na definição de Picasso, Guernica é a mentira que permite conhecer a verdade.

A mordaça

A quarta-feira promete um dia atípico no quarto andar do edifício Atlanta. Naquele dia, por alguma intuição, Lorrayne resolve chegar mais cedo para o trabalho. Passa pelo cafezinho e vê os colegas em acirrada discussão. Decide não ficar ali e, sem dizer uma palavra, segue para sua mesa.

O aroma do café invade a sala e como um bálsamo estimulante ativa seus circuitos cerebrais, remetendo-a para momentos em família. Não é hora de reminiscências. Aturdida pelo tom de vozes acaloradas, e curiosa para entender o que está acontecendo, questiona a colega do lado:

— O que houve?

— O alvoroço é por conta da sua matéria, que está pegando fogo. Veja os comentários no site.

Lorrayne liga o computador e vê o expressivo número de dois milhões de visualizações, em menos de vinte e quatro horas. Estupefata, prende a respiração e paralisa: olhar fixo na tela.

A reportagem narra a história de um magnata trazido à barra da justiça por suspeita de assassinato. A trajetória de crimes cometidos por um dos homens mais influentes do país, detentor de importante cargo no governo, cuja investigação tramita em segredo de justiça. A base é o depoimento de uma testemunha-chave do processo. Os advogados acusam o Ministério Público de repassar informações à imprensa.

A informação se espalha como rastilho de pólvora a provocar incêndios por toda a parte. A pergunta que não quer calar: como aquele documento chegou às mãos de Lorrayne? A deusa das fontes exclusivas não revela o nome de seu informante nem sob tortura. O crime escandaliza o cenário político e econômico do país. O dólar cai e a bolsa despenca em declínio gradativo.

De personalidade forte, a jornalista não se intimida nem recua em suas posições. Para ela, por pior que seja um órgão de imprensa, ainda assim, é preferível ao silêncio. Defende que um povo só é livre quando a imprensa está a serviço da liberdade de expressão; do contrário, as arbitrariedades do poder público ameaçam direitos fundamentais.

Naquele momento, o diretor Anderson entra na sala e vê Lorrayne ainda incrédula pela revolução de sua matéria multiplicada pelos demais órgãos de imprensa. Ele a cumprimenta pelo sucesso da reportagem e vai direto ao ponto; requer uma suíte (sequência de uma matéria) para aproveitar a visibilidade do site. Usuários acompanham perplexos as profundezas do lodaçal da corrupção.

Às nove horas em ponto, um homem corpulento, cabelos grisalhos e barba aparada chega à recepção. O misterioso emissário quer falar com o diretor do site e logo é levado a sua presença. Sem meias palavras, ele se identifica como oficial de justiça e entrega a notificação urgente.

A ordem é retirar a matéria do ar. A situação confronta a Constituição e não se coaduna com ares democráticos. O comunicado também ameaça: a não retirada da matéria do site impõe multa de cinquenta salários mínimos por dia. O homem colhe a assinatura, entrega o papel, dá as costas e vai embora.

A censura é mordaça. Os jornalistas estão desolados e tentam digerir aquela ameaça.

Lorrayne quebra o silêncio: Precisamos de uma poesia que nos tire do lodaçal.

Então, ele já sabe?

Naquele fim de tarde, Selênia ouve uma conversa que a deixa intrigada. Escuta, quando a futura sogra diz a sua arquirrival: Ele já sabe de tudo, e vai conversar com ela. O diálogo sem pé nem cabeça dá o que pensar e acende o sinal de alerta: Então, Alberto já sabe e só espera o momento para tomar a sua decisão. É o fim do relacionamento. Nada mais pode fazer.

O fato é que ela tinha ido longe demais. A dois meses das núpcias, as amigas deram um jeito de armar a sua despedida de solteira. Nada mais adequado que um congresso no Rio de Janeiro, com direito a muita diversão, prazer e aventura. Desde então, aquele segredo atormenta cada minuto de sua vida. Sente calafrios só de pensar no dia em que Alberto descobrir seu deslize.

Ele já sabe de tudo! Aquelas palavras provocam um sentimento de culpa. Depois de uma noite de insônia, Selênia sente-se ameaçada e começa a perceber que seu castelo de sonhos está prestes a desmoronar. Nos últimos dias, o noivo andava imerso nas decisões do doutorado, e por isso, aquele silêncio não despertara nenhum tipo de estranheza. Porém, aquela conversa, por obra do acaso, tem tudo a ver com a sua realidade.

Na manhã seguinte, Alberto está monossilábico e lê um texto de seu trabalho da faculdade entre um gole e outro de café. Deixa transparecer uma profunda introspecção. Ao término do desjejum, enquanto fecha o livro, sem mais delongas, diz em tom inquisitivo:

­­—À noite, precisamos conversar, Selênia!

Aquelas palavras soam como um tiro a queima roupa. Selênia não tem mais dúvidas de que aquele chamado é a confirmação da conversa que ouvira. Aturdida entra em estado de choque. Talvez um raio não tivesse um efeito tão devastador. Não é capaz de esboçar nenhum gesto. Por mais que tente dizer algo, a voz fica presa na garganta.

Ato contínuo, ele levanta-se da mesa, dá-lhe um beijo suave na testa e sai sem dizer mais nada. Parece tão apressado, ou talvez, a estratégia é sair logo dali para não lhe dar tempo de questionar o assunto. Atônita, ela o vê desaparecer pela porta. Quando escuta o ronco do motor de carro, tem a certeza de que está a sós com seus pensamentos em total estado letárgico.

Aquela reviravolta acontece quase às vésperas do casamento. Está tudo pronto! A mansão em que os dois vão morar é um palácio encantado. De um lado, a visão da montanha; do outro, o mar e a praia. O cheiro de flores no imenso jardim adornado pelas estátuas de mármore. fonte jorra correntes de água cristalina. Tudo obra de um decorador francês, amigo de Alberto. A sala de jantar destaca o brilho dos lustres. A piscina de luxo.

Sete anos de namoro. Ela o ama muito. Mas, conhece bem o temperamento de Alberto e sabe que ele não perdoará aquela traição. Consegue imaginar a decepção e a tristeza dele, pois também deve saber sobre a mensagem de seu affaire. A situação fugiu ao controle. Precisa dissipar as sombras que pairam sobre o seu destino.  Logo mais, o último encontro é apenas para dizer que casar não tem mais sentido. Diante de seu maior dilema, Selênia chora sozinha.

A noite chega. Alberto escolhe o melhor restaurante da cidade e a convida para jantar. O bilhete traz uma única frase: Tenho uma surpresa para você. A maquiagem esconde os olhos cansados de tanto verter lágrimas. O constrangimento invade sua alma, mas é tarde para se arrepender. Naquele momento, tudo o que ela mais queria era que o chão se abrisse e a engolisse para sempre.

Enquanto aguardam o prato especial da casa, Alberto faz um brinde àquele encontro. Com um gesto carinhoso, segura suas mãos e olhando dentro de seus olhos, repete o convite:

— Você quer casar comigo e morar na Inglaterra? É lá que vou fazer meu doutorado.

Imaginação e realidade

Naquela noite, a mãe ouviu vozes no quarto de Catherine. Pé ante pé foi até lá, espiou pela porta entreaberta e viu a filha gesticular e conversar com seus personagens imaginários. Achou engraçada aquela imaginação tão fértil. Porém, pensou que não devia interromper o momento de criatividade e voltou a dormir.

No dia seguinte, a menina não cabia em si de tanta ansiedade para chegar à escola, que se recusou a tomar o café da manhã. Inquieta, não ouvia nenhum dos apelos da mãe, por mais que ela tentasse negociar. Suas moedas de troca já não tinham mais o mesmo valor.

Linda com seu vestido azul e sapatinhos da mesma cor; o laço de fita prendia os cabelos longos caídos pelos ombros. Lá se foi a princesa transformar sonhos em realidade. Ao atravessar o portão da escola, a menina avistou a professora e correu ao seu encontro. A tia abraçou-a forte, sem deixá-la se afastar, e perguntou baixinho no seu ouvido:

— Você dormiu bem a noite, Catherine?

— Não, disse a menina, balançando a cabeça, e acrescentou: Esqueceu que hoje sou Chapeuzinho Vermelho e vou passear na floresta?

Desde que descobrira as aventuras do Pequeno Príncipe, Catherine só pensava em como resolver seus problemas. Onde ele iria encontrar um carneirinho para comer os baobás que cresciam na terra? Ela andava tão preocupada com Pinóquio, o boneco de madeira que desejava ser menino de verdade. A fada azul prometeu ajudá-lo, mas ele tinha que obedecer, ser honesto e ter responsabilidade.

Catherine conversava com Pinóquio e pedia que ele fosse bonzinho para virar menino de verdade e poder brincar. Ela sonhava que a menina Dorothy encontrava o Mágico de Oz e voltava para sua casa. Mas era por Branca de Neve que ela mais sofria. A princesa era perseguida pela madrasta por ser mais bonita que ela. E por isso, teve que viver na floresta, onde conheceu os sete anões.

Aqueles personagens eram os encantos de Catherine na hora do recreio. A cada dia, ela conhecia mais sobre seus heróis dos clássicas infantis no espaço de Contação de Histórias da escola. Ela se entregava ao convívio daquele mundo irreal que, às vezes, confundia a própria realidade. Acordava no meio da noite aos prantos, depois de ter sonhado com seus amiguinhos.

A verdade da criança é mesclada de espontaneidade e sutilezas que só mundo infantil revela. Os pais viam os exageros da menina com certa preocupação, mas ouviram dos professores que aquilo era normal para uma criança de seis anos. Logo, tudo iria passar.

Um desfile de personagens infantis foi organizado pela escola e cada criança representaria o seu herói. A semana inteira não se falou de outra coisa que não fosse o mundo encantado da fantasia.

Chegou o grande dia e lá estavam na passarela: o Gato de Botas, o Pinóquio, o Pequeno Príncipe, o Pequeno Polegar, o Mágico de Oz e outros amiguinhos. Ceciliana era a Chapeuzinho Vermelho. Toda vestida de carmim, com o aventalzinho branco de rendas; duas tranças emolduravam seu rosto, trazendo no braço a cestinha abarrotada de flores silvestres. Fez poses com graça, sorriu e acenou com beijos para a plateia.

Quando terminou o desfile, a menina saiu dizendo que iria para a floresta levar flores e doces à vovozinha. Mas nem a mãe nem a professora deram credibilidade àquela declaração da menina. Era apenas mais uma visão do mundo onírico.

Há três dias a comoção tomou conta da cidade. A notícia do desaparecimento de Chapeuzinho Vermelho ganhou a mídia nacional. A polícia investiga a suspeita de rapto da criança.